REVISTA

Tradição e originalidade

Texto: Elck Oliveira

Fotos: Dudu Maroja

Quem visita o bairro do Paracuri, em Icoaraci, ou mesmo a orla do distrito, certamente tem dificuldades em voltar para casa sem pelo menos uma peça da cerâmica produzida no local. São vasos, potes, alguidares, pratos, copos, tigelas, panelas e uma infinidade de pequenos e grandes objetos inspirados na cerâmica arqueológica amazônica, produzida originalmente por comunidades indígenas há milhares de anos, muitas das quais já dizimadas. As culturas marajoara, tapajônica, maracá e koriabo (mais recentemente descoberta pela arqueologia) continuam sendo referências fortes para uma grande parcela dos artesãos de Icoaraci, que luta para manter viva essa tradição.

 

O empresário Ciro Croelhas mantém, até hoje, no Paracuri, a “Olaria do Espanhol”, fundada em 1903 pelo avô dele, que, como o nome sugere, saiu da Espanha para viver em Icoaraci. Segundo Croelhas, a família do avô, que vivia na região de Palma de Mallorca, mudou-se para o Brasil com o intuito de buscar melhores condições de vida e aqui, em terras sul-americanas, continuou a trabalhar com a cerâmica, ofício que já dominava na Europa. Era o começo do século XX e havia poucas olarias em Icoaraci. A Olaria do Espanhol ajudou a formar a mão de obra que, posteriormente, transformaria o Paracuri em um polo da cerâmica no Pará. A presença abundante da matéria-prima na região, o barro, ajudou a dinamizar ainda mais essa produção.

No início desse processo, a quase totalidade das olarias trabalhava com a chamada ‘cerâmica utilitária’, ou seja, aquela que serve a um determinado uso do dia a dia, como pratos, copos, potes e alguidares. Foi somente a partir das décadas de 60 e 70, do século XX, que os artesãos de Icoaraci começaram a descobrir a cerâmica arqueológica, produzida pelas culturas indígenas que viveram na Amazônia há milhares de anos. Pessoas como o mestre Cardoso, o mestre “Cabeludo” e o mestre Rosemiro, artistas renomados do distrito (por isso, até hoje, são chamados de “mestres”), começaram, então, a desenvolver uma cerâmica mais artística, inspirada nessas culturas indígenas.

Seu José Anísio da Silva, de 74 anos, mais conhecido como “seu Anísio”, é de uma geração que aprendeu diretamente com esses grandes mestres. Ele faz um trabalho que chama de “agregamento”, isto é, a adição de motivos, desenhos e grafismos à peça que sai “lisa” da olaria. Na loja dele, no Paracuri, é possível encontrar vasos, pratos, panelas, garrafas, potes, luminárias, cofres, além de réplicas e peças estilizadas das cerâmicas marajoara, tapajônica e maracá. 

Lembra-se, com saudade, da época em que as peças saíam direto de Icoaraci para países da Europa, da América do Norte, da Ásia e até da Oceania, ou seja, para o mundo todo. “Havia uma grande procura de países como Inglaterra, França, Estados Unidos, Nova Zelândia e até do Japão. Recordo de termos mandado, certa vez, um grande carregamento para o Japão, há cerca de 15, 20 anos”, conta.

Hoje, segundo seu Anísio, os artesãos sobrevivem basicamente dos turistas brasileiros que chegam até Belém e são levados ao distrito, principalmente, por guias de turismo, taxistas e empresas de turismo que, em geral, têm parcerias com os artesãos. “Além disso, a tecnologia facilita muito. Eu, por exemplo, tenho um site na Internet, por meio do qual recebo muitos pedidos e, também, pelo whatsapp”, conta. 

A turismóloga Flávia Lima, especialista em Gestão Pública, Planejamento e Meio Ambiente, pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea), da Universidade Federal do Pará (UFPA), acompanha de perto essa história. Ela é servidora aposentada da Secretaria de Estado de Turismo (Setur) e já foi coordenadora estadual do programa de artesanato.

Flávia conta, como o seu Anísio, que a cerâmica de Icoaraci chegou a ser exportada para o mundo todo, há cerca de 20, 30 anos. Depois, sucessivos problemas acabaram diminuindo até fazer cessar esse movimento. Entre esses fatores, estiveram a dificuldade do artesão em gerenciar o próprio negócio; a escassez da matéria-prima, a argila, o que começou a ser detectado naquele momento, e as crises econômicas por que passaram a Europa e os Estados Unidos, já nos anos 2000. “Sem dúvida, isso tudo impactou na exportação da cerâmica. Além disso, já nos anos 2000, a cerâmica chinesa passou a ocupar um espaço muito grande, por ser bem mais barata”, detalha. 

Para a especialista, durante muito tempo, houve um grande apoio para os artesãos, principalmente por parte de órgãos como o Sebrae, que chegou a implantar uma unidade em Icoaraci, trabalhando especialmente na questão da qualificação dos artesãos. “Eu, como turismóloga, sempre vi um potencial muito grande no bairro do Paracuri. Acho que seria muito interessante uma urbanização específica ligada à cerâmica, com sinalização, portais de entrada, indicação de cada olaria. Qualificação profissional é importante, mas é necessário também que os governos invistam para transformar o local num ponto turístico, para que também a população de Belém e do Pará visitem o polo de Icoaraci com mais frequência”, aponta. 

Para Flávia, é de fundamental importância reconhecer e homenagear o trabalho desenvolvido pelos artesãos ceramistas de Icoaraci, que realizam, também, um resgate da memória e cultura indígena da nossa região. “Acho crucial que a gente possa homenagear esses grandes mestres, como o ‘seu Cabeludo’, seu Cardoso, seu Rosemiro, seu Anísio. É necessário sempre reconhecer as pessoas que preservaram e preservam a memória de uma cultura que existiu no Estado do Pará e que foi dizimada, mas que deixou uma riqueza e uma identidade cultural muito grandes”, destaca.

 

Dificuldades

A dificuldade que Flávia apontou, a respeito da matéria-prima, a argila, de fato, hoje, tornou-se um problema ainda maior. A artesã Socorro Abreu, membro da Sociedade de Artesãos e Amigos de Icoaraci (Soami), explica que o Paracuri, como muitas outras regiões de Belém e de Icoaraci, sofreu com o processo de invasões, nos últimos anos. O grande problema é que a área do bairro de onde se coletava a argila foi invadida e ocupada por traficantes, que agora proíbem a extração do barro no local. Com isso, os artesãos passaram a sofrer com a falta da matéria-prima. “Sem opção, muitos artesãos já abandonaram a atividade e estão partindo para outras áreas. Alguns poucos continuam batalhando para sobreviver”, lamenta.

Resgate 

Uma iniciativa na área educacional tem buscado resgatar e manter viva a tradição da cerâmica de Icoaraci. Estamos falando do Liceu Escola Mestre Raimundo Cardoso, ligado à prefeitura de Belém, que homenageia o mestre Cardoso, já citado nesta reportagem. Implantada no distrito há 23 anos, a escola oferece Ensino Fundamental com um currículo diferenciado: a cerâmica tem papel destacado no processo de aprendizagem. 

Segundo a diretora da instituição, Fernanda Sousa, na escola, os alunos fazem oficinais de cerâmica no turno ou no contraturno. Eles aprendem sobre argila, torno e grafismos com os próprios mestres ceramistas, que são contratados para a função por meio de processos seletivos específicos.

No Liceu, também é desenvolvido o projeto “Etnoconexões”, que busca propiciar aos alunos uma série de conhecimentos a partir da cerâmica icoaraciense. A professora de Artes, Larissa Cavalcante, diz que o projeto surgiu pela necessidade de buscar metodologias mais adequadas e integradas ao cotidiano dos alunos. “Uma das ideias é estudar os elementos da cultura da cerâmica produzida em Icoaraci e, por meio disso, os alunos vão aprendendo sobre a história do bairro, o processo de produção da cerâmica, o significado dela, seu valor cultural, os saberes das tradições indígenas, a ancestralidade dos grafismos, as transformações geométricas, entre outras questões”, enumera.

A aluna Maria Clara Souza, de 14 anos, está no nono ano do Ensino Fundamental, e estuda na instituição desde o quarto ano. Ela vem de uma família de ceramistas e conta que tem aprendido muito na escola. “O que a gente aprende aqui é muito bom porque é uma tradição, um patrimônio que a gente vem tendo contato desde cedo, aprimorando cada vez mais”, conta ela, que tem mãe e avó artesãs.  

“Replicando o Passado”

Desde as décadas 60 e 70 do século passado, o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) – uma das instituições de pesquisa mais importantes do Brasil e do mundo – realiza trabalhos de capacitação junto aos artesãos do distrito de Belém. Foi a equipe do Museu, por exemplo, que atuou junto ao mestre Cardoso e alguns contemporâneos seus, naquela época, dando início à produção da chamada cerâmica arqueológica de Icoaraci, isto é, a cerâmica inspirada nas coleções arqueológicas da Amazônica, como a marajoara, a tapajônica, a maracá, entre outras. 

Hoje, o Goeldi continua com esse trabalho, por meio do projeto “Replicando o passado: socialização do acervo arqueológico do Museu Goeldi através do artesanato cerâmico de Icoaraci”, que tem como objetivo divulgar o acervo da instituição e, ao mesmo tempo, potencializar a cerâmica, com inspiração nos estilos arqueológicos da Amazônia. 

O projeto leva os ceramistas para visitas ao acervo arqueológico do Museu Goeldi, difunde para eles conhecimentos sobre os contextos arqueológicos das peças, auxilia na escolha daquelas que serão replicadas e promove oficinas de capacitação, entre outras atividades. Ao final do processo, as peças produzidas são colocadas à venda e, também, formam coleções didáticas para uso de estudantes e deficientes visuais.

“O Museu Goeldi tem essa relação de muito tempo com os artesãos de Icoaraci e essa era uma demanda antiga deles, de querer ter acesso às coleções do Museu Goeldi, as quais, no passado, ficaram muito fechadas e inacessíveis. Decidimos, então, a partir dessa demanda deles, chamá-los para que eles pudessem ver as peças originais. Dessa conversa, surgiu a proposta de eles fazerem as réplicas, ou seja, não só uma cerâmica inspirada nas coleções arqueológicas, mas de reproduzir as peças da maneira mais precisa possível, tudo através de um processo de um estudo muito detalhado”, observa a arqueóloga do Goeldi, Cristiana Barreto. 

“É uma troca de experiências e de conhecimentos riquíssima para nós e para eles”, completa a arqueóloga Helena Lima. Juntas, Cristiana e Helena coordenam o trabalho com os artesãos. 

Após cerca de dois anos e meio no projeto, o grupo de artesãos já produziu réplicas de 20 peças do acervo do Goeldi. No momento em que a reportagem visitou o projeto, eles estavam realizando o que seria o último exemplar desse trabalho, a réplica de uma urna funerária marajoara, uma das peças mais emblemáticas da coleção do Museu. 

“Haverá uma exposição no final de abril, para mostrar o resultado desse trabalho. E, posteriormente, vamos chamar outros artesãos e uma outra leva de réplicas será feita. As réplicas têm funções variadas, entre as quais a qualificação do artesanato do Paracuri, e a formação de coleções didáticas, já que a gente pode preservar as originais e levar as réplicas para escolas e eventos”, resume Cristiana. 

O artesão João Sarmento, de 52 anos, 26 dos quais dedicados à cerâmica, esteve no projeto desde o início. Acredita que vai sair desse trabalho um artista muto melhor do que entrou. Nascido em Chaves, no arquipélago do Marajó, ele tinha um interesse especial pela cerâmica marajoara, mas, no Goeldi, descobriu a beleza das demais culturas arqueológicas amazônicas. 

“Quando cheguei ao projeto, ao Museu, conheci mais de perto a cerâmica tapajônica, a maracá e a kuriabo, que é uma outra cerâmica ainda pouco conhecida. Já fui, por meio do projeto, dar oficinas para comunidades no Marajó e isso é muito gratificante. Com certeza, tudo o que aprendi aqui vai fazer uma grande diferença no trabalho que desenvolvo lá em Icoaraci”, ressalta ele, que ficou encantado com a grandiosidade e a riqueza do acervo do Museu Goeldi. “A gente passou quase três anos no projeto e não conseguiu ver tudo o que tem aqui. Essa coleção, todo esse material é muito rico, é motivo de orgulho para todos nós”, conclui. 


Comentário