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Samba de Raiz

Uma amiga do jornalismo cultural certa vez contou a seguinte história: para cumprir uma pauta de última hora, bateu um telefonema sem agendamento para o sambista Jorge Aragão. Metade da manhã. E do outro lado da linha, em uma mensagem pré-gravada na voz inconfundível do compositor, ouviu a resposta. “Você está ligando para um sambista. Por favor, respeite a boemia. Volte a entrar em contato após o meio-dia.” Conversa mole ou não, o causo é bom, e fica difícil não resgatá-lo após algumas horas de tête-à-tête com Arthur Espíndola, igualmente sambista, mas que não só acorda cedo para produzir até mais tarde como também equilibra a disciplina de anos de carreira com a malemolência necessária a quem faz da arte um meio de vida.
 
Afinal, combinemos: não há quem se transforme em verbete mais citado no sistema de buscas do Google, sem, com perdão antecipado ao trocadilho, ter sambado direitinho. Experimente “Samba Amazônia” e confira o resultado. Desmamado em batucadas e sambas-enredo do ‘Rancho Não Posso me Amofiná’ e passado na casca do alho da ponte Rio de Janeiro-Belém, Arthur é o mais perto do que se pode chamar de militante do gênero. Faz da ansiedade - clinicamente diagnosticada - um motor para a construção da própria trajetória, deixando no breque a pista aberta para livre circulação de parceiros e chegados. 
 
“Músico desde os 10 anos de idade, frequentou o conservatório Carlos Gomes, em Belém. Morou no Rio de Janeiro, onde teve contato com grandes nomes do samba.  Produziu a série ‘Amazônia Samba’, cujo projeto tem como objetivo pesquisar e divulgar os sambas da região amazônica. Em 2012, foi o vencedor do Festival de Música Paraense, promovido por uma emissora local, com a música “Tô Fora de Moda”. Em 2013, participou do projeto Música na Estrada e também do Festival Terruá Pará.  Em 2014, gravou o CD “Tá Falado” (...) O disco mesclou ritmos regionais,  como carimbó e o lundu, com o samba tradicional (...)  Ainda em 2014, gravou seu o primeiro DVD, ao vivo no Teatro Margarida Schivasappa, em Belém (PA).”
 
O empréstimo de uma biografia quase taquigráfica, pinçada do “Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira”, faz sentido para descrever de forma sucinta um sujeito que olha o passado com carinho, mas sem lá muita reverência. Aos 32 anos, Arthur Espíndola, citado pelos críticos como um dos baluartes contemporâneos de um tal “Samba Amazônico”, cujas raízes remontam à obra de referências como o Manga Verde (grupo que nos anos 1980 vendeu discos a granel na esteira de sucessos como “Olê, Olá, Belém”e “Vai Lavar o Siri na Maré”), prefere o presente, e dele tem muito a dizer. Aos pouco familiarizados com a obra do músico, no entanto, é preciso reforçar dois aspectos-chave para compreender o perfil de Arthur: a curiosidade sem fim e a vocação para o trabalho em conjunto. 
 
Após o lançamento do primeiro álbum e a consequente gravação do supracitado DVD ao vivo, Espíndola investiu na finalização de um projeto concebido inicialmente como uma websérie sobre a história do samba no Pará. “Amazônia Samba”, realizada em parceria a Senda Produções, do também músico Pedro Vianna, reuniu a nata dos compositores e intérpretes do ritmo na região em torno de uma ideia simples: contar o que havia de curioso nos bastidores de clássicos da música popular como “Sufoco” - imortalizada por Alcione e (você sabia?) composta pelo paraense Chico da Silva. Foram produzidos 12 episódios para a primeira temporada, que da emissora estatal e ganharam espaço na TV aberta, dando outra dimensão ao projeto, com desdobramentos que reverberam até hoje na carreira do músico. “Virou um programa na TV Cultura e depois entrou na grade nacional da TV Brasil. Era pra ficar três meses na programação, mas ficou mais de um ano direto”, contou, sorriso orgulhoso, no final de uma tarde de setembro na sala de seu apartamento, no bairro da Cremação. 
 
A repercussão além do esperado atiçou em Arthur a vontade de ampliar o escopo da iniciativa. Nascia assim um novo questionamento: quem são e por onde andam os compositores de sambas anônimos no Pará? A resposta, que envolveu um ano de trabalho e fez o sambista e sua equipe de produção baterem perna pelos quatro cantos do estado, ganha as telas em novembro deste ano, quando está prevista a exibição da segunda temporada do “Amazônia Samba”. “Égua, registramos mais de cem músicas durante esses meses. Fomos ao Baixo Amazonas, fomos ao Baixo Tocantins, ao Marajó, visitamos a região do Salgado. Vimos e gravamos a realidade desses músicos, o que fazem, como vivem. Fomos em quilombos, aldeias, os lugares mais improváveis.” 
 
A cereja do bolo também já está pronta: o lançamento de um álbum duplo com 24 das músicas registradas na interpretação de nomes consagrados da música brasileira. Entre os mais de 30 convidados, medalhões como Leci Brandão, Dudu Nobre, Fundo de Quintal, Leila Pinheiro, Pedro Luís e Simoninha. “Imagina a emoção que é ver o Fundo de Quintal, onde tudo começou pra mim, gravando um samba de um compositor de Cametá?”. Resguardados por um contrato de edição com a Deckdisc, cada centavo arrecadado com as vendas dos produtos será repassado aos autores. A voz de Arthur vacila um pouco ao detalhar o projeto. “Vou te dizer: se não fizesse mais nada a partir de agora eu já estaria feliz. Chorei mil vezes ouvindo essas músicas.”   
 
Além do trabalho com outros artistas, Arthur também encontra tempo para preparar a sequência na discografia solo. Para o próximo álbum, ainda sem data de lançamento, o músico promete ampliar a sonoridade que marcou “Tá Falado” - uma paisagem sonora composta de partidos altos misturados a lundus, sambas-canções nas batidas de um carimbó. “No primeiro disco a minha coragem foi colocar instrumentos amazônicos para dar aquele sotaque paraense ao samba. Agora também pretendo incluir outras influências à minha música.” Um disco de samba? “Não sou um músico bitolado, que acha que o samba é a única música do planeta. Além de escutar de tudo, sou muito ligado na galera mais contemporânea. Ouço Pretinho da Serra, Casuarina, Inácio Rios, mas também curto Liniker, Strobo, Marisa Brito. São sons que quero implementar no meu trabalho, que é basicamente samba”, diz, olhando pra coleção de discos de vinil repleta de Paulinhos da Viola e Pink Floyds. “Por que não posso botar ali um moogie, uma guitarra nervosa? Onde tá a regra? Esse novo disco vem um pouco mais corajoso”.
 
Num cenário de mudanças radicais na relação entre artistas e público consumidor, Arthur vive da própria marca. Sob a coordenação da companheira, Mariana Cordeiro (“eu sou das ideias, ela é da organização”), toma conta de uma ponta a outra dos aspectos relacionados à carreira. No apartamento que dividem há quatro anos, lar e sede da “Oriente Produções”, um quadro de dois metros por oitenta centímetros ocupa lugar de destaque no escritório improvisado, com um planejamento de dar inveja ao mais caxias dos executivos. Ensaios, entrevistas, sessões de estúdio, negociações para captação de recursos: não há nada que escape do controle da dupla. Durante duas horas de bate-papo, sacou conceitos como Cauda Longa (cunhado pelo jornalista inglês Chris Anderson, cujo livro o músico admite, rindo, não ter lido) e mostrou o portfólio com que bate “sem vergonha” na porta de patrocinadores a fim de tornar suas ideias realidade, “ao menos cinco para viver bem no patamar que desejo”. 
 
Já perto do final da entrevista, Arthur olha para o relógio. Dali a pouco a agenda prevê um ensaio para a apresentação da noite seguinte, dentro do projeto “Sexta Sesi no Samba”, que mensalmente traz algum nome nacional para, por duas horas, contar histórias e entreter o público que desde maio lota as sessões realizadas no teatro da instituição. Mais cedo, havia participado de um programa televisivo local e, nos dias seguintes, estaria às voltas com o planejamento para retomar a roda de bambas itinerante que produz, sem periodicidade definida, pelas praças da capital paraense - isso sem contar as gravações do “Ilha do Samba”, programa voltado para as plataformas digitais que, na Ilha do Maracujá, apresentará músicas de Nilson Chaves, Mestre Cupijó, Pinduca e Waldemar Henrique em ritmo de samba. Uma rotina movimentada, mas a amiga jornalista cultural citada no primeiro parágrafo pode ficar tranquila: em caso de necessidade, ele atende a qualquer hora. 

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