REVISTA

Pra sempre Walter

Texto: Elvis Rocha

Fotos: Acervo Pessoal

 

No Bar do Parque dos anos 1980, um Ruy Paranatinga Barata de cabeça branca e voz anasalada mira o repórter e questiona: “O que é Belém do Pará sem Walter Bandeira?” Ao lado, o homenageado, cigarro na mão, finge modéstia enquanto resmunga para as câmeras; o grande poeta, diz ele, “exagera”. A pergunta, eternizada em vídeo, busca respostas desde o dia 2 de junho de 2009, quando Walter, artista multitalentoso que transitou desenvolto pela música, pelas artes cênicas e visuais, virou saudade para admiradores, parceiros e familiares que o acompanharam nos anos em que foi reconhecido -  sem exagero - como “A Grande Voz do Pará”.

 

Walter completaria 78 anos neste 2019. E dez anos após a despedida, abreviada por um câncer agressivo de esôfago, sua presença continua forte, seja nas ondas de rádio - por meio de canções, vinhetas e peças publicitárias que ele, locutor profissional, imortalizou em emissoras públicas e privadas -; seja em vídeo (com as plataformas de compartilhamento repletas de registros de apresentações ao vivo, gravações raras, entrevistas etc); ou pelas periódicas homenagens em forma de peças, shows e exposições realizadas para manter viva a memória do mais velho dos quatro filhos de Risoleta Bandeira e Euclides Gonçalves.

O reconhecimento é merecido. A despeito do talento elogiado muito além dos limites da terra em que nasceu, Walter Bandeira “escolheu” o Pará. Durante grande parte da longa carreira, lidou com  questionamentos frequentes sobre as razões pelas quais, sendo o artista que foi, nunca se aventurou em outros centros, como muitos de sua geração. A resposta quase sempre era uma declaração de princípios - não só artística. “Para sair de um lugar você precisa ter uma motivação boa muito grande lá fora ou uma motivação negativa muito grande aqui. E o que eu poderia ter lá não é suficiente para cobrir o que tenho aqui: amizade, carinho e respeito”, explicava.

Música

Para muitos, existiu o cantor Walter. E ele demonstrou inclinação para a música desde cedo. Do Colégio do Carmo, onde começou a cantar, para os palcos, foi um estalo. Foi crooner da banda de Guilherme Coutinho, com quem formou uma parceria encerrada apenas com a morte do pianista, fulminado por um ataque cardíaco em 1983. Da longa colaboração saíram dois dos álbuns mais disputados nos sebos paraenses desde então: “Guilherme Coutinho e A Curtição (1969)” e “Procura-se”(1971), que misturam a sofisticação de Jonnhy Alf, o suingue do Beco das Garrafas e o senso pop de Sérgio Mendes.  

Nessa época, Walter já cultivava a aura de irreverência que o acompanhou ao longo de toda a trajetória artística. Gay assumido, não tinha pudores em aproveitar a presença no palco para cutucar a sociedade conservadora da época. “Lembro do Walter cantando na Assembleia Paraense. Imagina, eu era uma garota de uns 12 anos e lá pelas tantas, no meio da música, ele mandava a gente gritar um palavrão: ‘Lá-lá-lá, porra!’. Em pleno salão da assembleia! Aquilo pra gente, um bando de garotos, era uma libertação e tanto”, lembra a atriz YeYé Porto, que anos mais tarde teria a oportunidade de transformar o ídolo dos palcos em um dos grandes amigos da vida. 

Entre os anos 1970 e  1980, o artista se manteve como figurinha carimbada na noite paraense, atraindo um público cativo para as muitas casas noturnas em que atuava, quase sempre com um repertório formado de standards americanos, MPB e as novidades da época.

Passou pelo restaurante O Outro, do chef Paulo Martins, fez época na Saudosa Maloca e foi o escolhido para animar a noite de inauguração do Hilton Hotel, em Belém, na noite do dia 18 de agosto de 1984 - Fafá de Belém, amiga e parceira musical de Bandeira, também se apresentou neste dia. “Walter era um tremendo cantor e intérprete. E era adorado pelas pessoas. Tinha fã clube feminino, de gays, de motoristas de táxi. Todos o adoravam”, lembra o violonista Nego Nelson, com quem Walter também fez história.

Integrantes do Grupo Gema, ambos ajudaram a transformar o Maracaibo, bar-teatro inaugurado em 1984, no que o jornalista Edgar Augusto Proença chamou de a “Grande Meca dos Músicos da Cidade”. Localizado na Alcindo Cacela, o bar recebeu até o ano do encerramento de suas atividades, 1994, praticamente todos os grandes músicos da cena local - nomes nacionais como Arrigo Barnabé, Luiz Melodia e Vitor Ramil, entre outros, também passaram por lá. “Fizemos mais de mil shows em dez anos. Tocávamos música de novela, instrumental, música americana, pop da época, que o Walter adorava. Foi uma época excelente”, diz Nego Nelson. As quintas-feiras, dia reservado ao Gema, eram certeza de casa cheia. 

É difícil encontrar alguém que tenha frequentado o circuito classe média de Belém no período que não tenha um causo para contar sobre as lendárias apresentações. “Foi quando virei amiga do Walter. Ele era ruim de decorar letras e eu desenvolvi um método de soprá-las antecipadamente do lado do palco. Assim ele conseguia cantar sem errar”, recorda, aos risos, Yeyé Porto. A trajetória da  banda rendeu a publicação de um livro, “Walter Bandeira & Grupo Gema”, escrito pelo pesquisador Advaldo Castro Neto - filho do percussionista Dadadá Castro, integrante do grupo - e lançado pela Imprensa Oficial do Estado em 2016, ano em que Walter completaria 75 anos. 

Apesar da longa carreira na música, Walter deixou poucos registros fonográficos, o que o fazia se aborrecer muitas vezes com a cobrança dos amigos e admiradores por mais gravações. Além dos já citados discos com Guilherme Coutinho, apenas em 1991 entrou em estúdio para lançar o primeiro disco solo: “Clichê”, um título “não é pra levar tão a sério” bem ao estilo do cantor. Em 2009 gravou o primeiro CD, “Guardados e Perdidos”, ladeado pelo pianista Paulo Campos de Melo. Não houve tempo para shows de lançamento. “Pra mim qualquer gravação é uma coisa parada, um momento só na vida da pessoa”, dizia, em entrevistas, para justificar a aversão aos estúdios. 

Teatro

“Walter não cantava apenas. Ele vivia as letras. Por ser um cara do teatro e levar isso pra música, era um intérprete diferenciado. Quando interpretava ‘Geni’, do Chico, era um espetáculo à parte...” A lembrança de Nego Nelson remete a uma das outras paixões da vida do artista. Além de cantor talentoso, Walter foi a vida inteira um homem das artes cênicas. Apaixonado pelo palco, em 1976 montou, ao lado de Zélia Amador de Deus, Luís Otávio Barata - com quem teve uma longa relação amorosa - e Margaret Refkalefsky, o Teatro Cena Aberta, um grupo que durante os 15 anos de sua existência ajudou a consolidar o teatro contemporâneo no estado. 

Criada em plena Ditadura Militar, a trupe se notabilizou pela coragem com que tratava de temas sensíveis para a época. Censura, precariedade de políticas culturais, violência contra minorias, questões sexuais faziam parte do universo do grupo, que fez do anfiteatro da Praça da República um dos imãs para os interessados em cultura engajada na capital paraense. “Conheci o Cena Aberta quando era estudante e ia assistir os ensaios no anfiteatro. Quando os vi pela primeira vez pensei: égua, quero fazer parte desse grupo, fazer esse tipo de teatro!”, lembra o ator Aílson Braga, que mais tarde se juntaria ao grupo e se tornaria amigo de Walter. 

“Ele tinha uma força e uma dramaticidade muito grande. Sempre conversava sobre leituras, filmes, e como levar isso tudo para o palco. Era uma pessoa interessada em quebrar essa caixa cênica do teatro. Sempre queria propor coisas novas em cena”, enfatiza a atriz e pesquisadora Luciana Porto, filha de Yeyé - e afilhada de Walter. Ela, sob a batuta da diretora Iracy Vaz, ajudou a levar aos palcos em agosto deste ano o espetáculo “Walter Bandeira - Sem Pecado e Sem Perdão”, uma empreitada que reuniu gerações para homenagear a memória do artista. “Antes de morrer ele me presenteou com muitos arquivos, DVDS etc. O espetáculo também surgiu desse baú de memórias, da visão que ele tinha sobre si”, diz Luciana.

Idealizado e montado pelo Grupo de Teatro de Insurgências Amazônicas (TEIA) num intervalo de oito meses, “Sem Pecado e Sem Perdão” lotou as seis noites em que esteve em cartaz no Teatro Universitário Cláudio Barradas. “Ao contar a história do Walter estávamos narrando parte da história da Belém dos anos 60, 70 e 80. Ele foi um ícone da nossa cultura, sobretudo porque trabalhou em duas frentes que contribuem muito para o desenvolvimento de uma cidade: a arte e a educação”, aponta Iracy Paz, uma das centenas de alunas de Walter no tempo em que foi professor da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará. 

Pintura

A peça encenada este ano não foi o primeiro grande projeto em homenagem a Walter após sua partida. Em 2016, quando ele completaria 75 anos, um grupo de amigos, artistas, pesquisadores e agitadores culturais se reuniu para produzir uma série de atividades com o objetivo de lembrar o legado do artista. Sob o título “Walter 75”, a empreitada contou com espetáculos musicais, a produção de um minidocumentário (Deboche!), o lançamento do mencionado livro sobre a história do Grupo Gema e a realização de uma exposição para divulgar uma faceta bastante conhecida pelos mais próximos: o Walter Bandeira amante das artes plásticas. 

“A ideia do projeto nasceu de uma conversa com a Nazaré Lima (grande amiga do Walter), que guardava todas as aquarelas e telas feitas por ele. Em 2014 resolvemos catalogar esse material e vimos que daria uma bela exposição. Em 2015 voltamos a falar desse assunto e ela lembrou que em 2016 o Walter completaria 75 anos. A ideia inicial foi a exposição das aquarelas. Queríamos mostrar um dos talentos que pouca gente conhece, a pintura. Ele produziu diversas obras. A maioria nunca saiu do seu espaço de criação. Algumas sequer assinava”, lembra Edithe Pereira,  idealizadora da exposição, intitulada “Walter Bandeira - O Canto das Aquarelas”. 

Montada no Museu da Universidade Federal do Pará sob a curadoria de Jussara Derenji, “O Canto das Aquarelas” ficou em exposição de 23 de agosto a 29 de setembro de 2016, apresentando 60 das centenas de aquarelas produzidas por Walter durante as madrugadas na casa em que viveu no bairro da Campina, no centro de Belém. “Uma das minhas maiores lembranças do tio Walter é ele pintando durante as noites após um dia inteiro de trabalho. Conheci Picasso, que eu tentava copiar ainda garota, porque ele gostava muito. Queria imitá-lo. Ele era a minha maior referência de artista”, recorda a jornalista Nara Bandeira, sobrinha e um dos “xodós” do artista em vida.   

Em fevereiro de 1982 Walter já havia realizado uma exposição com o resultado de suas atividades como artista plástico - alcunha com a qual ele dizia não se identificar -, uma mostra com 30 telas na Galeria Elf. Em setembro de 1989, por insistência de Gileno Chaves, voltou a protagonizar uma individual no mesmo espaço, desta vez com 40 trabalhos. “Tudo na minha vida é acidente de percurso. Comecei a pintar por puro prazer, sem pretensão nenhuma. Nunca vou ser artista plástico. A música me dá possibilidade de trapacear, a pintura, não”, disse em entrevista à época, com a habitual modéstia birrenta que contrastava com a opinião geral sobre seus talentos.

Família

É domingo de manhã e a casa está cheia. Nas paredes, aquarelas com temas femininos e um autorretrato de Walter. A mesa oferece tapiocas, pães e sucos variados. Pelas estantes há imagens do artista ainda jovem, ao lado de quadros com fotografias antigas da família. No bairro da Campina, em Belém, a equipe da Revista LiV é recebida para uma reunião com cara de revival de cenas vividas centenas de vezes naquele mesmo espaço. A pedido de Simone Bandeira, filha adotiva de Walter e atual detentora do espólio do artista, sobrinhos, netos, amigos e afilhados aparecem para dar testemunhos sobre suas experiências com o artista, tio, avô e amigo.  

“Só a Nazaré (Lima, historiadora e amiga de longuíssima data) que não veio. Ela disse que se emociona demais ao falar do Tio Walter”, explica Simone, justificando a ausência de uma das convidadas. “Muita gente não vem aqui pelo mesmo motivo”, acrescenta. De fato, a presença do cantor, dez anos após sua morte, se espalha por todos os cantos da casa de dois andares. Lá estão Yeyé e Luciana Porto, Nara Bandeira (com os filhos Clara e Patrick) e o neto Hugo, filho de Simone. A maioria tem histórias muito particulares para contar da relação com Walter, e quase todos embargam a voz em algum momento ao rememorar detalhes sobre o artista. 

“As pessoas lembram dele como um sujeito irreverente, polêmico, mas ele era um cara muito família. Era louco pelos sobrinhos, netos e afilhados e passava boa parte do tempo livre inventando passeios, contando histórias. Todos temos memórias muito boas dessa relação com ele”, diz Nara, que morou ali com os pais e tios até casar, aos 21 anos. “O almoço de domingo era tradição. Ou aqui ou na casa do Chembra (o jornalista Euclides Bandeira, irmão de Walter, falecido em 2000). Todo mundo se reunia nessa cozinha, onde rolavam conversas sobre música, jornalismo, tudo, coisas que foram muito importantes para a formação de muita gente que passou por aqui.”

Nara e Simone, filhas de Lúcia e Maria de Nazaré - esta irmã adotiva de Walter - eram os chamegos do cantor até a chegada dos “netos”. Nas plataformas de compartilhamento de vídeos, é possível encontrá-las, ainda crianças, em apresentações e videoclipes gravados por Walter. Desde a morte da matriarca Risoleta Bandeira, em 2012, Simone mora sozinha com o filho na casa de quatro quartos e atualmente é responsável pelos arquivos e objetos pessoais deixados pelo artista. O dormitório que servia para descanso e atelier particular segue intocado - e pouca gente tem permissão para visitá-lo. “Lá estão vídeos, documentos, fotos, escritos, arquivos de shows e espetáculos.” Pedimos para ver o acervo. A resposta foi não.   

Simone garante que não pretende manter o material longe dos olhos do público por muito tempo. “Quero que as novas gerações conheçam e saibam o que ele representou.” Conta que há quatro anos assinou um termo de compromisso com a Secretaria de Estado de Cultura do Pará (Secult) para a doação dos arquivos e uma equipe do Museu da Imagem e do Som já esteve no local catalogando todo o material, mas a doação ainda não foi efetivada. Não sabe dizer a razão. A Revista LiV entrou em contato com a Secult para confirmar o compromisso do Estado e buscar explicações para o suposto atraso, mas até o fechamento desta edição não teve resposta.

Depois de algumas horas de conversa, Bandeiras e agregados começam a dispersar. Nara se embrenha pelos cômodos da casa à cata de fotos antigas, Hugo mete a cara no celular, Yeyé e Luciana lembram de outro compromisso, Simone recolhe a mesa. Como o encontro já não faz parte do cotidiano, todos se encaminham para o quintal descoberto onde durante anos a família se refugiou em reuniões de final de semana e pedem um registro fotográfico. Enquanto se ajeitam, o pequeno Patrick, de apenas 6 anos, começa a repetir: “Vai aparecer uma alma nessa foto, vai aparecer uma alma nessa foto, vai aparecer uma alma nessa foto”. De quem seria? 


Comentário