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REVISTA

Do "pixo" aos murais do mundo

                          O muralista Eduardo Kobra retrata sua inquietação e sensibilidade às paisagens urbanas dos grandes centros

 

 

Em meio à agitação das ruas e ao cinza dos arranha-céus, a street art avança nos grandes centros. Já é parte indissociável da paisagem urbana mundial com suas pichações, grafittis e murais a céu aberto, produzidos por inquietos como Eduardo Kobra, artista brasileiro que figura entre os principais nomes da arte urbana mundial, até pouco tempo considerada apenas vandalismo. "Hoje em dia, quando você fala grafitti ou muralismo, as pessoas já sabem do que se trata. Se fala disso nas redes sociais, nas revistas… Antes, as pessoas achavam que era coisa de vagabundo”, conta Kobra, que ganhou o apelido ainda na infância por ser “cobra" no desenho.

O artista possui um catálogo invejável de trabalhos pelo mundo. Suas telas, que servem de base para os murais, estão expostas e são comercializadas em diferentes galerias em Nova York, São Paulo, Amsterdam, por exemplo. O início foi no "pixo" (ato de escrever ou rabiscar sobre muros) aos 12 anos, nas ruas do Campo Limpo, bairro periférico da zona sul de São Paulo. “Eu pichava por vandalismo mesmo. Eu não tinha uma intenção artística do tipo 'vou pichar aqui e deixar a minha arte'. Eu pichava como uma forma de dizer 'eu existo’, uma coisa da periferia mesmo.”

Foram necessários alguns anos para que Kobra migrasse para o grafitti. "Quando eu descobri que era possível fazer desenhos nos muros, abandonei um pouco o 'pixo' e fui pintar usando o mesmo suporte (o muro) e material (o spray), porém com intenção totalmente diferente. Eu já não tava mais só colocando a minha letra”, detalha. As primeiras intervenções vieram do seu envolvimento com a cultura hip hop, no final dos anos 80, quando integrava o grupo Jabaquara Breakers. "Eu pintava todo o conteúdo ligado ao movimento, falava de protestos, questões raciais, violência policial, temas ligados à periferia”, conta.

À época, grafitar profissionalmente ainda não fazia parte dos planos. Kobra trabalhava meio período em uma agência bancária e o tempo livre era dedicado ao grafitti, ainda como hobby. "Eu pintava praticamente todos os dias”. Não demorou muito para que, por volta dos 19 anos, abrisse mão da vida de bancário e tentasse ganhar a vida desenhando em muros. “Eu larguei o emprego no escuro. Não tinha nenhuma coisa certa do tipo 'vou largar pra ganhar grana fazendo desenho'. Isso porque eu não tinha nenhuma referência de alguém que tivesse feito isso e dado certo. Eu só resolvi deixar de lado mesmo porque eu gostava de pintar e não me sentia bem fazendo outro tipo de coisa.”

 

Mural 'somos todos um só' feito para as Olimíadas no Rio

 

O Beijo, em Nova York

 

 

Do trem fantasma para a memória   

Foi nesse tempo que mergulhou de cabeça no grafitti e passou a experimentar novas técnicas e buscar diferentes referências - parte delas nas histórias em quadrinhos - até chegar na linguagem que hoje é a sua marca registrada: o muralismo. “O meu trabalho sempre foi mais ligado a imagens realistas, perspectivas e anatomia. Isso significa que demora mais para fazer. Você não consegue chegar, pintar e sair fora. Então, eu tinha que pedir autorização para o proprietário do muro. E é aí que tá a diferença entre o grafitti e o muralismo, que é o que eu faço hoje. O mural não é uma questão da técnica, mas sim de ser ou não autorizado”, explica.

Com nome e desenhos espalhados por São Paulo, Kobra chamou a atenção do parque de diversões Playcenter - hoje fechado -, que o contratou para pintar a estrutura das suas atrações e murais internos. “Não era um trabalho livre, mas tinha um tema. Daí eu pegava parte da grana e continuava pintando na rua, pedindo sempre autorização. Mas também tinha alguns trabalhos ilegais, como pintar nos túneis da cidade.”

Os desenhos ainda seguiam a temática do hip hop, mas sempre com a preocupação de não ser apenas uma intervenção artística. "Eu fazia tudo bem intuitivamente, mas já pintava pensando em usar os muros como suporte para passar algum tipo de mensagem, o que na verdade acabou depois voltando no meu trabalho, com essa ideia de pintar não simplesmente por uma questão estética”.  

Entre as causas, ecologia, proteção animal, além de críticas sociais. "Até hoje meus murais estão ligados a causas que estão muito além do que eu pintei ali. Eu também trabalho muito com histórias reais, por exemplo, eu fiz uma sequência de trabalhos sobre crianças desaparecidas e sobre o desemprego, pintando currículo de pessoas desempregadas nas ruas, contando essas histórias."

A grande virada parece ter acontecido por volta de 2006, com o projeto “Muros da Memória”, em que busca transformar a paisagem urbana com releituras de fotografias antigas, num trabalho incrível de luz, sombra e tridimensionalidade. “As pessoas, às vezes, pensam que é só pela estética, mas também é uma forma de protesto em relação à preservação do patrimônio histórico da cidade”.

Uma das obras pode ser vista aqui mesmo, em Belém, na avenida Portugal com o Boulevard Castilhos França, em um mural que retrata barqueiros e o antigo cais do porto da cidade. Mas, a maioria dos trabalhos está na cidade de São Paulo, como um gigante painel, de 1.000 m2, na avenida 23 de Maio, com cenas da década de 1920.     

 

 

Da tela para grandes formatos

Os murais de Kobra não são apenas pinturas em grande escala. São resultado de um processo de criação minucioso e muito pessoal, que envolve, para começar, a definição de temas com os quais possua identificação. “Hoje, eu só aceito convites quando sou respeitado no aspecto do que eu estou criando. Eu não tenho problema nenhum em pintar o prédio de alguém, contanto que eu fique livre para pintar o que eu quero.”

Foi assim com o mural em homenagem a Anne Frank, em Amsterdã. Um dos inúmeros trabalhos realizados no exterior desde 2011. O artista escolheu pintar o retrato da vítima do Holocausto em um prédio de 30 metros de altura, com detalhes percebidos apenas por quem encara as ruas como uma grande galeria de arte. “Ali há um estudo de cores adequadas ao tema e as texturas que estão na roupa são da capa do diário dela. Há toda uma pesquisa dentro do universo do tema que eu tô trabalhando. Com cada personagem e cada história é assim.”

No famoso mural do Oscar Niemeyer, na av. Paulista, não se vê apenas uma profusão de cores previamente definidas, mas formas geométricas fazendo referências à obra do arquiteto. “No rosto do Niemeyer, aquelas formas são as obras dele. Têm mais de dez projetos dele que compõem o mural”. E toda a pesquisa para a composição dos murais é feita pelo próprio artista, num processo sem prazo definido. "Na hora da produção tem bem pouco improviso, pode mudar algo de cor, mas eu trabalho com planejamento. Tanto que as minhas obras têm um original, que é uma pintura numa tela."

Foi dessa maneira que encarou um dos maiores desafios de sua carreira: pintar no Rio de Janeiro o maior mural do mundo, segundo o “Guiness World Records”, com 15 metros de altura e 170 de comprimento. “A paz entre os povos” retrata o rosto de nativos dos cinco continentes e foi uma encomenda para a Olimpíada. Foram ao menos 6 meses de concepção conceitual e quase 2 meses de execução, sempre com a ajuda dos artistas Agnaldo Brito e Marcos Rafael, do Studio Kobra. “Eles são parceiros incríveis. Seria impossível e hipócrita eu falar que pinto sozinho. Não tem como.”

 

De malas prontas para o mundo

No auge de sua carreira como muralista, Kobra já está com a agenda de 2017 praticamente fechada. Em março embarca de vez com a família para viver nos Estados Unidos, por conta dos inúmeros trabalhos internacionais. Para se ter uma ideia, ele retornou há pouco tempo de mais uma temporada em terras americanas, nas quais desenvolveu uma sequência de murais com grandes nomes da música, como David Bowie e Bob Dylan.

"Hoje eu tenho necessidade de encontrar um equilíbrio. Neste ano, eu fiquei 7 meses viajando. Meu bebê nasceu, tá com seis meses, e eu só fiquei 15 dias com ele. É surreal”, desabafa. "O meu momento é esse e é global. Só que hoje me vejo nessa questão: eu vou virar um nômade? Antes, eu queria fazer tudo, mas agora eu tenho que escolher no que trabalhar”.

Na agenda de trabalhos selecionados um contrato com o Super Bowl, campeonato da NFL (National Football League), a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos. Ainda em fase de concepção, Kobra já definiu o tema e o local do mural: índios americanos, na cidade de Houston. “Eu estou pesquisando tudo sobre a história deles em filmes, livros, internet e entrevistas. Eu fiz uma visita a alguns índios e estou em contato frequente com cinco deles para desenvolver o trabalho. É uma pesquisa que leva até mais tempo que a pintura”.


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