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REVISTA

Do hip-hop a bailarino real

 

 

 

O carioca Thiago Soares começou no street dance até ser apresentado ao balé clássico. Com reconhecimento internacional, ele ocupa o posto de primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres.

 

No início deste ano, o primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres, prestigiada companhia de dança da Inglaterra, reestreou no Rio de Janeiro o espetáculo “Roots”, que resgata o início da vida artística dele antes de se tornar um dos mais reconhecidos bailarinos clássico da atualidade. Para o carioca Thiago Soares, a apresentação é um retorno às origens, do começo dançando nas ruas até a consagração. Da liberdade do street dance aos rigores do balé clássico.
Aos 34 anos, ele chegou a um estágio que não esperava quando começou a se dedicar mais à dança. “Eu não sabia quase nada de dança clássica. Mas, quando eu comecei a fazer balé com o objetivo de ser um bailarino, eu abracei a disciplina de imediato”, lembra. Considerado fisicamente perfeito para a dança clássica, curiosamente Thiago teve um início tardio com as sapatilhas, somente aos 14 anos. Mas, a partir desse momento, sua ascensão foi quase instantânea. Aos 17, já estava no corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em seguida, foi convidado pelo Kirov Ballet para integrar o seu quadro de aprendizes. Em mais de cem anos de história da mítica companhia, ele foi apenas o segundo bailarino estrangeiro a chegar a esse ponto - o primeiro foi o cubano Jose Manuel Carreño. Logo depois da volta ao Brasil, em 2002, ele partiu para uma audição no Royal Ballet, que precisava de bailarinos altos para acompanharem as bailarinas de mesma estatura. Foi aprovado. De pouquinho em pouquinho, a partir de papéis pequenos, Thiago foi aproveitando as oportunidades, até ser promovido a primeiro solista em 2004, aos 22 de idade.
Thiago continua no Royal desempenhando papéis importantes com a mesma determinação do começo da carreira, sempre elogiado pela responsabilidade e profissionalismo, que fazem dele uma das maiores estrelas atuais da dança clássica brasileira. Além de “Roots”, ele também está diretamente ligado a outros projetos, em especial o de um filme em sua homenagem, com previsão de começar a ser rodado ano que vem. A história de vida do bailarino vindo de uma comunidade pobre e que ganhou os palcos internacionais é considerada inspiradora para o mundo do cinema. Break, hip-hop.

 

 

 
A street dance te levou ao clássico. O que passava na tua cabeça no início dessa transição? Tinha como imaginar que ia enveredar pela dança clássica?
Quando fiz essa transição foi para me aperfeiçoar como dançarino de hip hop. Não fui achando que iria me tornar um bailarino de imediato. Nessa época, não haviam meninos na escola e eles precisavam de rapazes e fiz com o intuito de me aperfeiçoar e limpar meus movimentos para que dançasse melhor a dança urbana.

E chegar a esse estágio atual? No início do balé, você pensou em sempre se aperfeiçoar para buscar o nível de excelência que chegou?
Quando eu comecei a fazer balé com o objetivo de ser um bailarino, eu abracei a disciplina de imediato. Até porque meus pais estavam se separando, meu irmão estava indo embora para Belo Horizonte para morar com a namorada, meu pai estava entregando a casa onde a gente morava e eu estava indo morar com uma tia. Então o meu lar e o meu dia a dia estava se dilacerando e eu me agarrei na dança. Tudo o que eu tinha era aquilo. Eu usei a disciplina da dança para também me suprir, pra eu ter para onde ir, para eu ter o que fazer.
 
O balé profissional tem uma rotina física de um atleta de alto rendimento. Você já comentou mais de uma vez que abdicou das diversões da juventude para se dedicar à dança. O quanto a preparação mental e a obstinação te influenciam?
A gente vive a vida do bailarino, do dançarino e do atleta. A gente está sempre no limite do corpo. A higiene mental é o mais difícil pra quem trabalha sempre no risco e em alto rendimento físico, mas é quase 80% de importância. Sempre procuro um tempo para fazer isso e pra mim é muito importante, higiene mental é prioridade. Apesar de uma quantidade considerável de bailarinos, o Brasil não figura entre os países com grande tradição em desenvolver talentos.
 
 
 
 
 
 
 
 
O que pode e deve acontecer para que isso mude?
O Brasil tem muitos talentos da dança, coreógrafos também. O que eu acho que poderia mudar é de repente as empresas e os investidores, em algum momento, juntarem-se com quem conhece de dança profundamente e tentar criar o nosso próprio estilo, a nossa própria história. Eu acho que a gente investe um dinheiro muito grande em companhias e nomes de fora como a escola do Bolshoi em Joinville, que é maravilhosa e tem um trabalho bacana, mas é uma intinerância que não é pra gente, e sim para um bailarino que um dia vai dançar no Bolshoi aquele estilo. Seria muito importante ter uma escola nossa, onde pudéssemos não só montar esses artistas com os corpos que nós temos e também com um pouco da nossa maneira de sentir. Acho que é muito complicado a gente criar uma geração de artistas que sentem, se movimentam e tem biotipos de gente que vive do outro lado do mundo. Na hora que os conhecedores do balé profundo se juntarem com as empresas e se derem conta que a gente tem que criar nossa marca e nossa indústria, acho que a gente vai poder servir melhor nossos bailarinos.

Quanto a essa falta de tradição, outros bailarinos, em especial europeus, chegaram a te tratar de forma diferente em um primeiro momento?
Me deparei em alguns momentos da minha vida aonde eu estava trabalhando com colegas que começaram a dançar aos cinco anos de idade e isso é muito delicado para alguém entender essa coisa meio relâmpago que aconteceu na minha carreira sem ficar um pouco de nariz torcido. A verdade é que eu fui abraçado e tive suporte de muitos colegas, grandes colegas, grandes artistas no mundo, mas tive momentos em que as pessoas questionavam um pouco o como, pois a dança é uma coisa quase que cruel, às vezes, você pode trabalhar 30 anos da sua vida e não conseguir chegar a dançar um solo num palco e, às vezes, você pode fazer dois anos de balé e ganhar uma medalha que representa algo para um país.

Você se como uma fonte de inspiração para garotos brasileiros, seja na dança ou em qualquer outro caminho de vida?
Eu me sinto como alguém que trabalha em função da arte. Qualquer pessoa que me conheça e tenha um pouco mais de intimidade comigo, que leia os meus trabalhos ou que acompanha as minhas turnês, sabe que uma coisa que eu sou devoto é a arte, o trabalho em função da arte. Não sei se todas as minhas decisões e passos nessa trajetória profissional foram certas, não sei se é o verdadeiro caminho, mas eu sei que é um caminho que pra mim tem funcionado e eu tenho aprendido e crescido com isso. Eu acho que se a minha história, a minha intinerância na dança, servir de exemplo para outros bailarinos ou outros jovens eu vou ficar muito feliz. Mas não sei se eu sou referência unânime dos jovens. Eu gostaria de ser alguém que esteja marcando um caminho. Esse é o meu desejo do coração.

O mundo das grandes companhias de dança clássica, pelo menos na literatura, no cinema, é sempre mostrado como de extrema competitividade, rivalidade e vaidades. A realidade passa mesmo por aí ou ela é romantizada demais?
A indústria da dança e das companhias internacionais é muito competitiva em todos os ângulos. Não só pelos bailarinos, mas também pelos coreógrafos, pelos diretores e eu acho que é essa competição, perseverança e obsessão com a disciplina que faz a indústria se reinventar tanto e crescer tanto. Dos anos 50 e 60 pra cá, a dança evoluiu de uma forma monstruosa e quem está na indústria sabe e reconhece que às vezes a gente até se pergunta pra onde a dança vai se já evoluiu tanto assim, então eu acho que isso se dá por essa competição e não acho que é romantizada.

Aqui no Brasil, você sofreu algum tipo de preconceito quando fez a transição da street dance para o balé? O que você mesmo sabia da dança clássica antes disso?
Eu nunca sofri preconceito no meu país e se sofri, acho que eu estava olhando pra frente. Eu estava olhando para o gol que eu queria marcar e não tive tempo de ficar com tanta sensibilidade tentando questionar se era preconceito ou não. Eu não tive isso.
 
 
 


Viver tanto tempo longe do Brasil te fez apreciar mais as coisas daqui? Por exemplo, havia pequenas coisas, do cotidiano, que mal fazia conta e com o tempo fora passaram a fazer falta. Do costume à culinária.
Viver fora é ter a oportunidade de rodar por esse mundão a fora é a melhor maneira de aprender as coisas. A dança me revelou muito sobre o meu país, muito das coisas positivas e infelizmente algumas negativas, que são bem evidentes. Eu tenho muitas saudades das coisas mais básicas e que nos definem. Essa coisa urbana e praia. Essa miscigenação entre essa vida tropical, urbana e ao mesmo tempo dinâmica, cheia de boêmia e trabalhos, isso me faz muita falta. E a positividade do brasileiro. Acho que isso é o ouro da gente, acho que essa vontade de que mesmo que tudo esteja arruinado de olhar o amanhã e ver um sol lá do outro lado do monte e achar que vale a pena, acho que isso é ouro.

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