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Círio histórico

Natural que uma festividade tão cercada de paixão e devoção, como é o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, guarde consigo também um lastro inimaginável de histórias, “causos” e curiosidades que chegam a parecer impensáveis agora, passados mais de dois séculos desde aquela primeira vez em que a imagem percorreu as ruas de Belém – já para uma multidão proporcional à população da época. Na História, na religião, na memória afetiva de qualquer pessoa que vivencia ou estuda um fenômeno capaz de bater recordes nos aspectos mais inusitados - como de impressão de cartazes temáticos em todo o mundo, por exemplo -, são tantas as inspirações, as lembranças, os costumes – alguns mantidos, outros descontinuados porém não esquecidos –, que se torna até arriscado pensar no que pode se transformar uma manifestação tão rica e acolhedora de detalhes e acessórios, seja daqui a 10 ou a 100 anos.
 
No lar do historiador Aldrin Figueiredo, um sobrado antigo super charmoso no centro da capital paraense, há um sem-número de imagens e outros itens de decoração e são poucos os que ele não consegue estabelecer como tendo alguma conexão com as origens ou inspirações da devoção nazarena. Os “registros”, de origem portuguesa, são comparáveis às peças de cera que os devotos depositam nos carros de promessas. Nos quadros, de bordados a imagens de santos, cujas adorações antecipavam o que estava por vir. “O Círio tem um pouco de tudo isso”, afirma ele, que antes de estudar a manifestação, de fato, se dedicou a estudar as irmandades religiosas dos séculos XVII e XVIII, inclusive uma chamada Nossa Senhora de Nazaré do Desterro, que desapareceria no século XIX. 
 
“Paticídio” e “clima de Círio”
 
Estabelecendo uma linha do tempo de marcos importantes, Aldrin lembra que, no início, eram os marinheiros que abriam a procissão, com homenagens em forma de um verdadeiro balé de malabaristas e aprendizes circenses, uma tradição super portuguesa. “Já é nos anos 30 que vai se modificando, com a entrada dos colégios católicos. Por muito tempo a data também foi móvel, o Círio ocorria entre setembro e novembro, logo depois da Festa de São Brás, que não existe mais”, cita. O “paticídio”, um costume já do século XIX e que significa exatamente o que o nome sugere, foi a prévia da relação da comilança com a festividade. O Arraial de Nazaré era ainda maior do que é hoje, segundo o historiador, com teatros, jogos de roletas, área de circo, moradores do entorno com cadeiras na porta de casa, por vezes até alugando essas cadeiras - a chamada ‘Sociedade do Descanso’. “Um detalhe interessante eram os doces vendidos em tabuleiros nesses momentos, os doces do espírito: alegria, raiva, sonho, suspiro e paciência, sendo que esses três últimos ainda existem até hoje”, relata
 
“Um conjunto de tradições religiosas, mas culturais. Viajantes relatavam desde o início o ‘clima de Círio’: um mês antes os moradores pintando a casa, costurando roupas novas, cozinhando. Na época da Cabanagem, em 1848, um cientista protestante inglês chegou a escrever sobre o clima surpreendente da época sem chuva e ventilada, chamou de ‘Lua Cheia de Outubro’”, conta.
 
Estudioso do tema há muitos anos, Aldrin confessa que é inclusive mais de se contagiar pelo tal clima de Círio do que da devoção. “Gosto do almoço, gosto de ir à Basílica, à Sé, não necessariamente em dia de procissão, amo o fato de conseguir encontrar, sem marcar, com pessoas que acabo não vendo durante o ano”, revela. Ele desaprova os arcos fixos ao longo da Av. Nazaré, que deram lugar aos que eram montados ano a ano especialmente para o Círio. “Eram belos, de madeira, e sempre davam a chance de um artista plástico fazer algo novo, voltado para a festa, como é com o manto. Uma tristeza trocar por algo tão sem beleza”, lamenta.
 
 
 
Culto Mariano: ponto para a Igreja
 
No século XX, a espetacularização do Círio, muito em razão da atenção dada pela mídia, faz sua marca a partir dos anos 70. É a partir daí que ganham força os eventos paralelos, boa parte deles não reconhecidos pela igreja, como a Festa da Chiquita e o Auto do Círio - reconhecidos no entanto pelos órgãos de patrimônio, como o Iphan - algo que ele entende como uma forma de controle por parte do clero. “Sempre foi assim. A verdade é que o paralelo sempre existiu. O arraial já era um circuito alternativo, lugar para namorar. Há registro de transgressões, de brigas. Diziam que era o momento em que Deus dá licença ao diabo!”, diverte-se.
 
Um detalhe desconhecido para muitos é que o culto mariano é do Oriente, vem da Síria, e Aldrin vê como acerto o, digamos, investimento da Igreja Católica nessa devoção. “Acho essa uma conexão legal do Cristianismo, porque vira um grande ponto de união. É só você ver: judeus vão ao Círio, evangélicos servem comida e água. É um transe, uma emoção, um diluidor de diferenças de classe. Não tem ateu que não fique tocado”, elucida. “E tem o mito do eterno retorno, cíclico. Passa o ano inteiro, volta, e a gente quer que aconteça de novo tudo o que aconteceu antes, a reunião com a família, visitar a casa dos outros. Nada é igual, mas fica tudo interligado nessa memória afetiva do Círio”, analisa.
 
 
 
Portugal é pai (e mãe)
 
Devoto apaixonado por Nossa Senhora de Nazaré, o professor e jornalista João Carlos Pereira passeia entre o histórico, ao qual se dedica a estudar até hoje, e às próprias memórias, como a “transladação mole”, que ele lembra de ter acompanhado antes dos 20 anos de idade, na década de 70, pagando promessa para passar no vestibular. “Era manso, ventilado. A gente ia com a mão na corda sem sufoco, tinha espaço entre as pessoas, dava para andar sem aperto”, garante. Em seguida relembra a Questão Nazarena (1877-1880), quando a Igreja se põe contra a Irmandade de Nossa Senhora de Nazaré, o que rendeu dois Círios civis, nos anos de 1878 e 1879, após a proibição do bispo D. Antônio de Macedo Costa de qualquer envolvimento por parte do clero na manifestação. 
 
Se o assunto é origem, João é firme em apontar as influências lusitanas. “É totalmente português, inclusive o Círio da Prata Grande, em Portugal, é o mais semelhante ao nosso que existe”, compara. Para ele, a essência da celebração é mantida, afinal, o objetivo permanece sendo levar a imagem da Igreja da Sé até a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré. Mas de lá para cá, foi muita coisa que mudou. “O governador, por exemplo, não vai mais. Até durante o período de Governo Militar, todos foram: Alacid, Guilhon, Passarinho. Acompanhavam ao lado do arcebispo”, exemplifica.
 
 
 
Círios grandes desde o início
 
Entre um Círio e outro, os famosos carros vão mudando, uns saindo, outros entrando. Um que acabou sendo extinto foi o dos foguetes, pelo risco que oferecia. Mas o mais antigo, o da barca portuguesa, simbolizando os sobreviventes de um naufrágio, permanece. O da Santíssima Trindade foi substituído pelo da Sagrada Família. E por aí vai.
 
“O Círio já começa grande, saiu engolindo Corpus Christi, Páscoa, virou o maior. Mesmo os círios civis foram grandes. Dizem que em um desses dois a imagem foi levada ao Hospital da Beneficente Portuguesa, mas isso é apenas dito, não há registros. O Theatro Nossa Senhora da Paz virou só Theatro da Paz por conta da Questão Nazarena: Dom Macedo Costa não admitia esse nome em um lugar de apresentações profanas. E a sugestão do nome tinha partido dele, depois ele mesmo mudou de ideia!”, brinca. João lembra que até mesmo em Portugal a devoção nazarena era muito forte, até aparecer Nossa Senhora de Fátima.
 
 
 
Círio agropecuário...?
 
O lado cultural do Círio ganha muita força no século passado, o jornalista também confirma, mas ele lembra que a origem da procissão já mostrava que não seria algo somente religioso. “Não dá para esquecer que o primeiro ocorre em meio a um evento semelhante a uma feira agropecuária. Miriti, comidas, festas, é tudo bastante recente”, pontua. A valorização por parte da imprensa é um ponto bastante forte na linha do tempo do Círio de Nazaré, tendo ele mesmo participado das primeiras transmissões pela TV. “Era uma loucura, a gente dentro do estúdio narrando e a Santa passado na porta da TV e a gente sem poder ver!”, lembra. 
 
“É preciso reconhecer que a partir do momento em que o jornalista Romulo Maiorana, no final da década de 60, começa a dar um embalo à festa, os outros veículos seguem e tudo fica ainda maior. Antes disso o Círio nem patrocinado era, ia às ruas com o que se tinha, a berlinda era de flores de papel, a corda era a mesma por vários anos, não havia sonorização nas ruas”, rememora. O ‘Jornal do Dia’ passou a contratar artistas plásticos para fazer cadernos inteiros dedicados ao Círio. “Hoje em dia o negócio ficou tão chique, que Banco patrocina; café, concessionária de energia. Prova de que as coisas mudaram muito. A imprensa foi percebendo o tamanho da festa”, relaciona.
 
 
 
Recorde mundial
 
Duas curiosidades bem inusitadas sobre o Círio têm a ver com a quantidade de impressões de cartazes e também de livretos de orações, aqueles usados nas novenas realizadas nas igrejas e nas casas nas semanas que antecedem o segundo domingo de outubro. São 900 mil cartazes anualmente e 100 mil livretos. “Segundo meu amigo e vizinho Osvaldo Mendes, publicitário, são dois recordes. O primeiro é mundial: ele diz que não existe no planeta outro lugar que imprima, todo ano, um único cartaz de uma única festa religiosa. E o segundo é porque não há tiragem de publicações na região Norte maior, nenhum livro já sai com 100 mil cópias impressas”, contabiliza João.
 
A mudança do horário do início do Círio, de 7h para 6h da manhã é um desastre na opinião dele, por conta do risco de precisar sair às 3h, 4h de casa para acompanhar a missa em uma cidade insegura como está Belém. Mas se é para falar de mudanças positivas, o professor aponta a “evolução” da administração do uso da corda ao longo dos anos. “É a mudança mais significativa. O esquema atual, com Núcleo da Berlinda, cinco estações, foi bastante estudado por engenheiros e parece mesmo ser o melhor até agora. Já houve corda com fileiras separadas por sexo e guiada por um único tenente da Polícia Militar, Orlando Bezerra, isso entre 1966 a 1984, que era protestante. Sozinho e com um apito de dois toques ele ordenava todo o percurso”, revela.
 
 
 
Baratismo e a corda
 
Por falar em corda, João Carlos lembra que a “crise da corda”, na década de 30, foi resolvida graças ao populismo de Magalhães Barata (1888-1959), o então governador do Estado, que peitou a igreja diante da determinação de extinguir um dos maiores símbolos da procissão. “O impasse só foi resolvido às vésperas do Círio, mais pela popularidade do governador do que pela questão religiosa. A igreja aproveitou a ocasião para disciplinar o uso da corda e as coisas mudaram a partir daí”, confirma.
 
Em quase uma hora de conversa, ele conta um tanto sem fim de minúcias sobre o Círio de Nazaré, muitos detalhes, nada pequeno, sempre tudo muito grandioso, como é a festa, a fé e o culto na maior procissão católica do planeta. “Será que esqueci alguma coisa?”, pergunto, ao final da entrevista, ao que ele responde, meio rindo:
 
- É claro que esqueceu! 

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