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Arte que se sente

Por Vanessa Libório.

Fotos: Divulgação/artista.

 

A artista plástica Sylvia Martins vive em uma ponte aérea que conecta Nova York ao Rio de Janeiro. Dona de um estilo muito pessoal e uma biografia ainda mais interessante – carregada de pinceladas do jet set hollywoodiano, Sylvia nos recebeu no Brasil para falar de sua carreira e rememorar sua trajetória.

Sob o calor de quarenta graus, de uma manhã ensolarada do Verão carioca, Sylvia Martins recebeu a Liv, em seu apartamento no Arpoador, no Rio de Janeiro. Lá dentro, temperatura de montanha... Bem no clima em que a artista plástica está acostumada, já que passa mais tempo em Nova York do que no Brasil. Mas durante 4 meses por ano, é o Oceano Atlântico que dá bom dia a Sylvia. “Hoje, o mar tá maravilhoso para nadar!”, diz a gaúcha, de Bagé, ao se aproximar da janela, referindo-se a um hobby antigo. “Nado todos os dias!” Completa.

 

Vaidosa, inteligente, determinada e sistemática. O interfone toca durante o início da entrevista. Ela pede desculpas e levanta para atender. Volta esbravejando, dizendo que não consegue se adaptar ao modo brasileiro de chegar na casa dos outros sem avisar. “Era o pintor que chamei na semana passada e não veio. Hoje, estava passando aqui perto e queria subir pra fazer o serviço sem sequer ter avisado que vinha. Isso jamais aconteceria nos Estados Unidos!”, comenta Sylvia, que depois de 40 anos morando fora, se adaptou completamente aos hábitos americanos. “Nova York é a minha casa, mas acho que o Rio de Janeiro é um lugar melhor para se envelhecer!” 

Ela carrega tantas histórias que às vezes se perde no tempo. Tenta lembrar o ano em que visitou a Índia. Na dúvida, pega a autobiografia, que chama de... “como é que fala mesmo quando a gente quer resumir uma história cronológica?” - “Coletânea?” - “Isso! Desculpe, é que esqueço algumas palavras em português”, comenta a artista que desde os 23 anos fala mais o inglês que sua língua-mãe.

  

As 152 páginas da cronologia da vida e obra de Sylvia, foram baseadas no seu maior arquivo: as 40 agendas que acumulou ao longo dos anos. As páginas se confundem com rabiscos feitos por uma criança, vai ver coisa de artista... “Todo mundo adora as minhas agendas, sempre me pedem pra ver. Aqui tenho tudo registrado do que fiz na vida, dos remédios que preciso tomar, as viagens, encontros, as idas ao salão”, conta com um sorriso orgulhoso no rosto. Talvez de maneira inconsciente, os traços nas agendas já eram as primeiras manifestações da arte que Sylvia viria a desenvolver ao longo de sua vida. “Eu acho que arte nasce com você, não adianta você aprender”, diz a artista que relembra ter passeado por várias vertentes até se identificar de corpo e alma com a pintura em óleo. “Tentei gravura, escultura, mas nunca foi a minha praia”.

As pinturas de Sylvia refletem sua rica e interessante história de vida. Em algumas, a contemplação pode durar horas, como numa preciosa meditação. Difícil até definir um estilo. Ao mesmo tempo em que utiliza símbolos universais, as mensagens podem esconder ou revelar situações profundamente pessoais. “Pintar é um processo muito doloroso, tem muita emoção. Tudo pra mim é muito intenso: a única coisa que salva o artista é criar”.

  

Sylvia rompeu com os paradigmas da década de 70. Numa época em que as mulheres eram educadas para serem esposas, ela pediu aos pais, aos 14 anos, para sair da cidade no interior do Rio Grande do Sul, com 116 mil habitantes, onde o pai criava cavalos. No Rio, estudou num colégio interno. Depois fez Faculdade de Comunicação. Na época, não havia Faculdade de Artes. Sylvia fez cursos livres. Até que conheceu uma pessoa que perguntou se ela não queria ir para Nova York trabalhar no studio de Andy Warhol, pintor e cineasta norte americano referência, no movimento pop art. “Ele era o papa das artes. Se você conhecesse o Andy, você estava feito!”, diz Sylvia. O ano era 1979. Esse seria seu segundo grande voo.

Em Nova York, Sylvia estudou na Art Students League por 3 anos. A brasileira chamava a atenção pelo talento, pela garra de ir atrás do que queria e pela beleza. No meio do frisson da capital mundial das artes contemporâneas, conheceu o ator Richard Gere. “Assim que cheguei em NY saía para dançar todos os dias, ia nas discotecas, conhecia pessoas, era uma época muito boa!”, lembra com o olhar saudoso de uma juventude que parece não tão distante. Os dois moraram juntos por 8 anos, mas ela não considera ter sido casada com Gere. “Pra mim casamento tem que ter papel ou filhos, e isso não teve!”, diz, contrariando as notícias de vários sites que estampam manchetes falando do casamento de Gere com uma brasileira. “Nos damos bem até hoje, outro dia ele me ligou perguntando se não poderíamos nos encontrar num bar que fica próximo ao meu studio no Soho. Me apresentou a atual mulher. Foi agradável”, conta Sylvia com um semblante tranquilo, mas logo deixa escapar que em certo momento os dois viveram um relacionamento aberto e que ficava sabendo dos ‘affairs’ de Richard pelos tabloides. “Não era muito confortável, acho que eu queria algo mais” confessa. 

  

 

Em meio à agitação do cotidiano nova iorquino, Sylvia aproveitou o embalo e abriu um restaurante junto com uma amiga – um ótimo pretexto para as esticadas noturnas depois que o expediente nos studios acabava. Nessa mesma época, trabalhava para o badalado italiano Giorgio Armani fazendo pesquisas para compor as criações do estilista. A vida da menina que se sentia um peixe fora d’água no interior, alcançava as metas que ela tinha traçado.

Dois anos depois, o restaurante fechou. Somado ao fim do relacionamento com o galã mais cobiçado do cinema, Sylvia quis dar um tempo de Nova York. Conheceu o playboy grego Constantine Niarchos, caçula dos quatro filhos do bilionário Stavros Niarchos. Em 1993, se mudou com ele para Londres. “Não me adaptei a Londres. Mesmo querendo dar um tempo de NY, sentia que ali não era o meu lugar”. Quatro anos depois, o empresário, único homem com quem ela foi casada no papel e considera como marido, morreu uma semana depois de ter sido considerado o único grego a alcançar o topo do Everest. A artista plástica não gosta de comentar as circunstâncias da morte do ex-marido. As investigações da polícia inglesa apontaram que ele morreu de overdose. Pouco depois, Sylvia voltou para NY.

  

Recentemente, a brasileira do mundo decidiu conhecer um lugar que sempre esteve próximo dela, mas que só há quatro anos, colocou no roteiro, como prioridade indiscutível: a Amazônia – mais especificamente Manaus. Era 2015 e Sylvia realizou um sonho: nadou no Rio Negro. “Quando eu entrei naquela água, eu chorei! Foi muito emocionante!”. Mas engana-se quem acha que a experiência serviu de inspiração para uma obra. “Inspiração é uma coisa que não existe, você tem que ir pro studio, sentar a bundinha na cadeira, colocar uma musiquinha, ou ir pro computador e procurar ideias, essa coisa de ah... tô inspirado é besteira, pra mim inspiração é trabalhar!”, diz.

Aos 65 anos, Sylvia Martins não se considera uma mulher realizada. Diz que a vida é dura e que envelhecer é difícil. “Hoje mais do que nunca preciso das minhas agendas, a velhice nos faz perder a memória”, comenta com bom humor.

No apartamento de mais de 200 metros quadrados de frente para a praia, que ela mantém há 18 anos, Sylvia transformou parte da sala em um belíssimo estúdio, mas acredite... nunca pintou nada dentro dele! “A pintura em óleo é um trabalho mais difícil, não dá pra pintar em 15 dias. Para um quadro ficar pronto, leva-se, em média, 3 meses... como eu não costumo ficar aqui tanto tempo, acabo não pintando... Ou então vai ver que é essa paisagem que me tira a concentração!”

  

A gaúcha que saiu de Bagé e ganhou o mundo, tem um discurso muito semelhante ao de um outro brasileiro, que também fez sucesso na Big Apple: Tom Jobim. O músico costumava dizer que ‘Nova York era o máximo, mas que não vivia sem o Rio’. “Preciso me acostumar a morar no Brasil, porque NY é muito bom durante um tempo. Depois, a cidade suga muito. Toda aquela agitação passa a não ter mais tanto sentido. Quero envelhecer pintando e nadando no mar!”, finaliza com o olhar apontado para as ondas como se o balanço das águas refletisse o balanço da vida. 


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