REVISTA

Além do abstrato

Texto: Yan Caldeira

Fotos: Dudu Maroja

A simplicidade de Paulo Azevedo revela a riqueza de memórias das suas obras

Paulo nos recebe em seu ateliê como quem recebe em casa. Assim que as portas se abrem, a conversa flui conforme Azevedo traz a experiência de décadas em um jeito descomplicado. “Tudo começa no olhar”, diz o artista, que na adolescência se encantou com o mundo colorido de Tomie Ohtake. Atualmente, a inspiração não se limita às galerias, mas nasce da vida cotidiana. A ideia pode vir de uma folha envelhecida a uma calçada manchada de tinta. “Hoje, meu trabalho está muito baseado nos registros deixados pelo tempo”, declara.

E o tempo foi generoso com Paulo. Perto dos 50, viajou o mundo com sua arte: Rio, São Paulo, Alemanha, França e, mais recentemente, Liechtenstein, onde teve sua obra exposta em um acervo de pinturas brasileiras. Mas, para o artista, nada é melhor que o caminho de casa. “Não tem lugar melhor do mundo que as tuas raízes. Quando eu tô por aí, fico louco pra voltar.”

 

 

Com a sabedoria de quem conquistou sua identidade artística, Paulo afirma: “eu não acho que a minha pintura é só um abstrato”. Para ele, sua obra guarda significados mais complexos. “Pintura abstrata é uma pintura tirada de um desenho pré-estabelecido, deixado pelo tempo. O presente é que tu tens que mudar. São efeitos provocados pelo tempo que estão desenhados lá, à espera do olhar”, diz.

Em um mercado como a arte, naturalmente, a estética é um tema recorrente no dia a dia da área. Mas Paulo não busca apenas a harmonia, especialmente com uma obra complexa, que propõe reflexões sobre a passagem do tempo. “Eu não paro uma obra porque ela está bonita. A forma da beleza eu já conheço [...]  Eu paro pela exaustão”, comenta.

O destino guardou uma curiosidade na vida do artista. Formado em Arquitetura, hoje, os principais mediadores das suas vendas são justamente os arquitetos. Figura carimbada dentre os projetos arquitetônicos mais badalados da cidade, atualmente conta com dois espaços em Belém, além de ser representado por galeristas mundo afora. Azevedo compara os mercados brasileiro e estrangeiro. “No Brasil se compra mais. Se consome mais”, declara. Porém, enquanto Paulo é conhecido dentro do círculo de compradores e entusiastas da arte, fora do país é diferente: “na Europa, [...] As pessoas te conhecem na rua, se interessam por você. As crianças, desde cedo, conhecem você.”

 

 

Passeando pelas obras e histórias de Paulo, o tempo voa. A prosa leve e simples revela um artista com a cabeça antenada no mundo, mas os pés muito bem fincados no chão. “Eu não quero que as pessoas saiam daqui do mesmo jeito que entraram. É uma obrigação minha, do meu trabalho”, comenta. “Se você sair do mesmo jeito que entrou, não valeu a pena você ter vindo”. Não se preocupe, Paulo. Em sua companhia, nunca perde-se a viagem. 

 

• Ateliê pessoal

Av. Generalíssimo Deodoro, 2066 • Belém / Pará

 

• Ateliê

• Molduraria

• Galeria

Tv. Rui Barbosa, 1553 • Belém / Pará


Comentário